Presença em centros financeiros mundiais, reforço de equipe e recuo dos estrangeiros fortaleceram bancos de investimento nacionais
Há dez dias, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) divulgou os rankings que norteiam esse setor. Os números deste ano disponíveis até agora revelam um fenômeno: os bancos nacionais roubaram uma fatia importante do mercado dos estrangeiros. Na lista dos bancos que mais fizeram emissões de ações, entre os cinco maiores, três são brasileiros.
O Itaú BBA se destacou dos demais. Até outubro, o banco foi responsável por quase um terço do valor das emissões de ações na BM&FBovespa. Foi seguido por BTG, com 20,9% e Credit Suisse, com 12,7%. O BBI apareceu em quarto. Já em fusões e aquisições, os três primeiros lugares ficaram com os brasileiros (veja rankings abaixo). "Os brasileiros estão ganhando uma relevância cada vez maior. No nosso quintal, o galo somos nós", diz Luiz Galvão, diretor-gerente do BBI. "Ficou evidente que os bancos nacionais aprenderam a mapear as oportunidades, saber onde estão as demandas."
O protagonismo dos brasileiros se deve a uma combinação de fatores. Sem tradição no negócio, eles vêm se preparando há alguns anos, tirando profissionais de instituições renomadas, reforçando a estrutura de analistas de mercado e montando escritórios nos principais centros financeiros do mundo. Mas foi a partir da crise, em 2008, que o cenário mudou. Instituições como o Lehman Brothers foram riscadas do mapa. Boa parte dos bancos estrangeiros se retraiu no mundo todo, inclusive no Brasil, abrindo espaço para as marcas nacionais, que estavam numa posição financeira sólida e tinham um longo histórico de relacionamento com clientes.
Na opinião de um banqueiro que até pouco tempo estava numa instituição estrangeira, Itaú BBA e BTG Pactual, particularmente, se descolaram do restante por duas razões: gente e foco. "A competência técnica é mais ou menos a mesma hoje no mercado. Mas o trabalho dos nacionais é mais direcionado. Eles não precisam perder tempo com problemas da matriz." Esse executivo conta que, depois de 2008, sua rotina no banco mudou. Passou a gastar mais horas do que gostaria em aviões para Nova York, México e Colômbia. "A burocracia é importante, faz parte do mundo corporativo. Mas o que eu sei fazer melhor é fechar negócios - e, para isso, eu não tinha mais tanto tempo", diz. "A filial brasileira tinha autonomia enquanto o banco ia bem."
Abordagem. A virada do Itaú BBA teve início em 2005, quando o Itaú definiu uma estratégia: usar a base de três mil clientes no Cone Sul, com os quais o banco de varejo tem uma relação estreita, para oferecer a investidores institucionais do mundo todo acesso a esses clientes. "A nossa abordagem foi: se você tem interesse nessa região, fale com seu banco global, mas também fale conosco porque a gente conhece esse mundo melhor do que ninguém", diz Jean Marc Etlin, vice-presidente de banco de investimento do Itaú BBA.
Egresso do suíço UBS, o executivo chegou ao Itaú BBA em 2005, três anos após o Itaú adquirir o controle do BBA de Fernão Bracher e Antonio Beltran Martinez. Naquela época, o banco de investimentos tinha 80 pessoas. Hoje são 330. "Uma das preocupações que tínhamos era criar uma plataforma atraente. A gente tem de criar algum tipo de dinâmica para que a pessoa se sinta meio dona do negócio", afirma Etlin. "Em uma situação em que você não é visto como um ator importante, os melhores talentos não vêm trabalhar aqui. Os caras vão trabalhar num banco global da vida, um nome maravilhoso como JP Mogan, Citibank."
Para tentar reter os talentos, o banco deu uma atenção especial à política de remuneração, ponto nevrálgico de um negócio em que gente é o que faz diferença no final do dia. "Quando estava em um banco global, tinha a impressão que a relação entre o que eu fazia e ganhava era muito pequena. Isso nunca é perfeito, mas a gente tem procurado encurtar essa distância", afirma Etlin. "No fundo, tem a ver com meritocracia, que é o segundo conceito que a gente preza, depois do cliente. Resumindo, você gerou, levou."
Bônus. Com a crise, o modelo de remuneração dos bancos de investimento estrangeiros, muito voltado para o curto prazo, foi colocado em xeque. Embora os negócios continuassem em alta no Brasil, os estragos em outros países acabaram respingando por aqui, diminuindo o bônus dos profissionais locais. Segundo o Estado apurou, uma parte ainda maior do bônus passou a ser retida em forma de ações. Como muitos desses papéis perderam valor, ficou mais difícil segurar os profissionais. "Isso tirou a competitividade dos estrangeiros", diz Renato Ejnisman, diretor-gerente do BBI. "Hoje tem muita Rapunzel de banco estrangeiro jogando as tranças para mim", diz Galvão, que está prestes a inaugurar o escritório do banco em Hong Kong.
O Bradesco, que entrou apenas em 2007 na disputa, ainda paga um preço por ter chegado atrasado. No mercado, carrega a fama de não ter a cultura agressiva dos bancos de investimento. "Isso é passado. Houve transações super complexas que a gente participou, como a emissão de R$ 120 bilhões da Petrobrás no ano passado, que não daria para entregar se não tivéssemos essa cultura", afirma Ejnisman. "Essa fama é injusta. A equipe que está aqui poderia estar em qualquer outro banco." Para montar o time do banco de investimentos, que hoje tem cerca de 60 pessoas, o Bradesco contratou profissionais do UBS, Morgan Stanley, Barclays, Calyon, Credit Suisse e Société Générale.
A compra do UBS Pactual pelo BTG, no meio da crise, em abril de 2009, foi uma demonstração da inversão do equilíbrio de forças nesse mercado. Conhecido por um modelo agressivo de fazer negócios, o banco de André Esteves destoa dos grandes bancos internacionais - e até dos brasileiros. Quando montou o BTG, após deixar o UBS, André Esteves levou profissionais por salários mais baixos, mas deu, em contrapartida, sociedade no banco. "Nos bancos globais, no final do ano, a última coisa que a gente queria era ação. Aqui, ao contrário, todo mundo quer ser sócio", diz Guilherme Paes, sócio e diretor da área de banco de investimento do BTG. Segundo Paes, só em fusões e aquisições, a receita do banco até novembro mais que dobrou na comparação com o mesmo período de 2010, apesar de o mercado como um todo estar bem menor este ano.
No Brasil, até hoje, esse foi um setor que viveu de ondas, com idas e vindas dos bancos estrangeiros, conforme o ritmo instável dos negócios. Os nacionais só despertaram de fato para as oportunidades desse mercado em 2004, com a retomada do mercado de capitais no País. Num mercado dinâmico como esse, é difícil detectar tendência. Mas, pelo menos por enquanto, os gráficos dos bancos brasileiros só têm apontado para cima.
Economia&Negócios
Estadão