quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Como os executivos investem

Uma pesquisa exclusiva revela o que a elite dos trabalhadores brasileiros faz com seu dinheiro – e o que é preciso melhorar

Foto: Victor Affaro; edição de imagens: Artnet
Atitude. É este o segredo para o sucesso profissional, para a boa ventura amorosa – e também para obter bons resultados financeiros. Trata-se de cultivar bons hábitos, colher informações, dedicar tempo à análise de cenários e ter discernimento e disciplina para fazer boas escolhas, consistentemente.
Esse conjunto de qualidades sempre foi necessário. Mas é mais necessário hoje. E o será ainda mais no ano que vem. Com juros declinantes, inflação à espreita, possível impacto da crise mundial, incertezas no câmbio e, ao mesmo tempo, um mercado interno ainda dinâmico e repleto de oportunidades, a vida se torna bem diferente do que foi há apenas alguns meses.
O problema é que o brasileiro médio ainda pensa como antigamente. Não o antigamente de 2010. Um antigamente mais antigo, da década de 80, quando a inflação comia os salários e a opção mais inteligente era estocar produtos e se proteger em aplicações baseadas nos juros pagos pelo governo.
Não é que esse mundo tenha desaparecido por completo. Mas o quadro já é outro há algum tempo. Ninguém melhor do que os executivos de grandes empresas para saber disso. Eles formam a elite financeira do país, e as empresas que comandam sentem no dia a dia os impactos da realidade brasileira – pela inflação, pelo câmbio, pelo endividamento, pelas oportunidades.
E, no entanto...
Uma pesquisa realizada pela empresa de pesquisas Ipsos com exclusividade para Época NEGÓCIOS revela que os executivos brasileiros ainda precisam de treinamento financeiro. Mesmo aqueles ligados à área financeira, por ofício mais atentos e equipados para lidar com dinheiro, escorregam em hábitos e escolhas duvidosos – como investir em demasia na caderneta de poupança, cujo retorno é seguro, porém pífio.
A Ipsos ouviu 122 executivos, em cargos de diretoria e alta gerência, de diversos setores de atividade. A amostra foi dividida em duas partes: de um lado os que trabalham nos departamentos financeiros das companhias, de outro os das demais áreas. Estatisticamente, é um universo que permite a generalização. Ou seja: trata-se de um retrato de como os executivos brasileiros lidam com o dinheiro. O resultado da pesquisa está distribuído nos quadros ao longo desta reportagem. Destacamos algumas das principais conclusões, cotejando as respostas dos executivos com as recomendações de analistas e com exemplos de presidentes e diretores.
Nas reportagens seguintes, apresentamos os cenários mais prováveis para 2012, alguns exemplos de investimentos diferentes, desde a arte até ser anjo em empresas novas, as principais armadilhas mentais em que incorremos na hora de aplicar nosso capital e, finalmente, uma análise de como investir no seu principal ativo – você.
Este não é um guia que enumera os fundos que mais renderam no ano. Por dois motivos: o primeiro é que, como diz qualquer anúncio de produtos financeiros, resultados pregressos não garantem retornos futuros – especialmente não no momento em que a economia, tanto a mundial quanto a brasileira, está sofrendo tantas mudanças. O segundo motivo é que os produtos financeiros devem ser escolhidos caso a caso. Não apenas para o tipo de risco que você aceita, mas também para o momento que você vive, para os objetivos que tem, para o seu estilo de vida. O início de tudo é a atitude. O que este guia propõe é que você conheça o seu jeito de ser e investir, e promova as mudanças necessárias.
Saber qual é o seu perfil é essencial. Só assim você poderá fazer o dinheiro trabalhar a seu favor
Infográfico_Flávio Pessoa
1. Conceda-se um aumento
Pense em quanto você trabalha. Em quanto você é competente. Em quanto seu talento faz diferença. É claro que você está merecendo um aumento. Então que tal ganhar um salário a mais por ano? Ou tirar proventos maiores da sua empresa? Melhor: sem precisar entrar em negociação com o conselho de administração, nem fazer campanha para o chefe. Segundo o consultor financeiro Marcos Silvestre, autor do recém-lançado livro Investimentos à prova de crise, ganhar um salário a mais por ano só depende de você. Basta reservar 15% dos seus rendimentos todos os meses e aplicá-los em um investimento conservador – porém mais dinâmico que a poupança. Algo como os títulos do Tesouro Nacional (cujo rendimento líquido médio é de 0,3% ao mês acima da inflação). Num período de 20 anos, os juros compostos dariam um ganho de 42,6% acima do valor poupado – o equivalente a quase 17 salários.
Parte significativa dos executivos já se conscientizou da necessidade de poupar com regularidade: 39% deles separam uma parte do salário para investir todo mês. Entre os executivos financeiros, a taxa é um pouco mais alta: 45%. Mas uma parte expressiva é completamente desregrada: 32% só fazem aplicações quando recebem algum tipo de renda extra, como bônus ou 13º salário. E 18% só investem quando sobra algo no fim do mês.
A desculpa para poupar pouco é que os gastos se impõem. “Não é verdade”, diz Silvestre. “Pode ser que você não consiga poupar o ideal, que seria 30% do rendimento mensal, mas qualquer percentual já é válido.”
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2. Não minta para si próprio
Quase metade dos executivos brasileiros se diz moderada (45%). É quase tanto quanto a parcela conservadora (48%). E apenas 7% se identificam como arrojados. Até aí, nada de errado. O problema é que, quando se analisa a carteira de seus investimentos, fica claro que eles são bem mais conservadores do que admitem. Seis em cada dez executivos têm dinheiro na poupança, e 16% têm praticamente todos os seus investimentos (mais de 90%) lá. É muita coisa para uma aplicação que rende tão pouco.
Não chega a ser uma catástrofe. “Realmente a poupança está longe de ser um bom investimento. Mas ela não é de todo ruim”, diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria Integrada. “As pessoas fazem isso porque sabem que irão garantir algum ganho sem risco e com uma grande liquidez.”
Classificar-se erroneamente traz problemas. Se você se considera mais conservador do que na verdade é, pode estar perdendo oportunidades – assumindo menos risco do que tolera. No caso oposto, quem se considera mais arrojado do que é costuma ficar insatisfeito com seus ganhos: espera retornos altos, sem apostar no risco. Quem classifica mal seus prazos de investimento aumenta a probabilidade de fazer maus negócios (se você só vai usar o dinheiro em dez anos, mas acha que precisará dele em dois, deixa de investir mais arrojadamente, em ações, por exemplo – o que poderia fazer, mesmo sendo conservador, porque o tempo dilui o risco). “Se você não tem certeza do seu perfil, chega sempre no fim da festa. É importante definir o grau de tolerância à perda para abraçar oportunidades”, afirma João Albino Winkelmann, diretor do private bank do Bradesco, divisão do banco responsável pela administração de grandes fortunas.
Conhecer o próprio perfil não é tão simples quanto preencher um teste e escolher entre as opções conservador, moderado ou arrojado. Há que levar em conta o seu momento de vida – se está começando a ganhar dinheiro agora, se tem filhos pequenos, se planeja fazer uma pós-graduação em breve, comprar um apartamento ou reservar um capital para quando se aposentar. “O ser humano é muito mais complexo do que essas classificações. Nenhum investidor segue à risca os perfis”, diz William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças (CEF) da Fundação Getulio Vargas (FGV).
As teorias sobre finanças comportamentais mostram que os indivíduos dividem seus investimentos numa espécie de pirâmide. Na base estaria o dinheiro poupado para proteção contra a pobreza. Mais acima estaria uma quantidade menor de capital, depositada em aplicações menos conservadoras (e com maior potencial de rentabilidade). Na ponta da pirâmide ficaria a parcela destinada à busca por oportunidades – um investimento arriscado, mas com chances de um alto retorno. As pessoas que só colocam dinheiro na base da pirâmide têm problemas. Querem apenas não ficar pobres. Não fazem o dinheiro trabalhar para elas. É o caso de boa parte dos executivos.
3. Há vários modos de ser fiel ao seu estilo
Barcellos é conservador de outro modo. Um quinto de sua economia mensal vai de forma automática para três planos de previdência privada: um para ele e um para cada filha. O objetivo é que elas tenham dinheiro para pagar o ensino superior. “Pensei em abrir uma poupança para elas, mas, conversando com uma amiga que investia em previdência, mudei de ideia.” Ele só aplica em renda fixa e em ações quando entra algum dinheiro extra (bônus, participação nos lucros, venda de um imóvel). Hoje, 50% dos seus recursos estão na previdência privada, 15% em ações e o restante em renda fixa.
Winkelmann, do Bradesco, é arrojado. Tem 40% do portfólio em ações e 60% em renda fixa. Antes da crise, os percentuais eram invertidos: 60% em ações. Mas é um arrojado cauteloso. Só compra ações de grandes empresas, especialmente as que distribuem dividendos, como as do setor de telefonia e energia elétrica. “Os valores que elas me pagam mensalmente equivalem a uma aplicação em renda fixa. Mesmo que a ação não suba num ano, vou ganhar”, diz. Apesar de acompanhar mensalmente suas aplicações, Winkelmann não especula. Costuma manter as ações por pelo menos três anos. “Investir em small caps (empresas menores e menos populares) é arriscado. Num ano você pode ganhar muito, no outro pode perder tudo.”
Não é preciso ser arrojado para ser bem-sucedido. O que é preciso é adequar-se ao seu estilo. E, dentro dele, há várias opções. Loyola, da Tendências, é um conservador bem diferente de Marco Barcellos, diretor de marketing da Cisco. “Eu tenho mentalidade de servidor público, sou bem mais conservador que meus amigos”, diz Loyola. O grosso de suas aplicações está em renda fixa. Uma pequena parcela, de 10% a 15%, em ações. “Acho bobagem ter algo no meio-termo, perfil moderado.” A pequena parcela em que ele decide arriscar, arrisca de verdade.
O executivo brasileiro não investe tanto quanto é recomendado. Só 8% poupa mais de 30% do salário
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4. Eleve a barra
Para quem não é especialista nem tem tempo de acompanhar o vaivém dos mercados, a sugestão é optar por uma carteira recheada de empresas de primeira linha, como Vale e Petrobras, tendo em mente um horizonte de longo prazo: pelo menos cinco anos. E apostar também na renda fixa, especialmente nos títulos do Tesouro Nacional. Nos últimos dez anos, a rentabilidade média mensal das ações mais negociadas na BM&F Bovespa foi de 0,6% acima da inflação. A poupança teve rentabilidade média de 0,1% e os títulos do Tesouro, de 0,3%.
Winkelmann, do Bradesco, é exemplo de disciplina. Ele diz separar cerca de 40% do salário para investimentos. Nos meses em que recebe seu bônus – fevereiro e agosto – o aporte é bem maior: eles são integralmente aplicados. Em dezembro, coloca o equivalente a 12% do seu rendimento anual num plano de previdência do tipo PGBL, como forma de planejamento tributário.
Há um outro modo de se comprometer com um alto valor para a sua carteira: mirar num objetivo concreto (viagem, curso, apartamento, aposentadoria), estabelecer um período para cumpri-lo e estimar o rendimento mensal da sua aplicação. A partir daí, calcule a “mensalidade” a ser paga – ou seja, aplicada todo mês.
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5. Faça as contas
Ter meta ajuda a conter a ânsia de consumo, anabolizada pela recente expansão do crédito no país. “Temos toda uma geração que não viveu o período de hiperinflação e, ainda assim, é ignorante quando o assunto é educação financeira”, diz Eid, da FGV. Sua avaliação é de que o brasileiro consome sem considerar o custo do dinheiro. Parte dos executivos brasileiros está enredada nesse consumo imediatista: 29% pretendem usar o 13º salário para pagar dívidas (na área financeira, são 25%, nas demais, 32%).
6. Peça ajuda
Winkelmann, que tem a função de orientar grandes investidores, não dispensa ajuda para si próprio. “Tenho a síndrome da falta de tempo, como a grande maioria dos executivos que atendo. Conto com a gerente do banco para me mostrar as oportunidades de investimento e também falar sobre o vencimento de aplicações. Em 80% das vezes acato suas sugestões.”
Marco Stefanini, executivo-chefe da empresa de tecnologia Stefanini, também pede a ajuda de um consultor especializado. Além disso, terceiriza o controle do patrimônio para sua mulher. É ela quem lida diretamente com os consultores do banco. Como a maioria dos executivos, porém, Stefanini não é muito disciplinado. “Não tenho meta nem sobre a quantidade nem sobre a periodicidade das aplicações. Invisto de acordo com a renda que me sobra no mês. Algumas vezes, não separo nada, em outras coloco um bom dinheiro no banco.” Seu portfólio é dividido em ações (cerca de 10% do total), hegde funds (15%) e os demais 75% em fundos de renda fixa ou opções ainda mais conservadoras.
É uma carteira equilibrada e mais variada do que a dos executivos em geral. Quando respondem onde colocarão seu capital nos próximos 12 meses, somente 20% dizem que pretendem investir em ações. A preferência é por imóveis (51%), uma escolha controversa – seu preço subiu muito nos últimos anos, mas havia ficado imóvel durante três décadas, e sobre este investimento ainda incorre o custo de manutenção. Em segundo lugar, vêm as aplicações em renda fixa. Logo em seguida fica a caderneta de poupança, escolha de 44%.
Marco Barcellos, da Cisco, faz parte do pequeno grupo mais ousado. Ele pretende complementar o investimento em previdência privada com a compra de ações de empresas de primeira linha. A volatilidade dos últimos anos na bolsa de valores, porém, tem adiado a decisão.
O executivo brasileiro não poupa tanto quanto pregam os especialistas. Apenas 8% deles investem mais de 30% do salário (o recomendado). A maior parte (45%) guarda de 6% a 20% dos rendimentos. Um quinto aplica entre 21% e 30%. Também lhes falta diversificação. Há uma grande concentração na poupança e em imóveis. É possível ir além da poupança e manter o controle sobre o risco. Não é recomendado colocar tanto dinheiro em algo com um rendimento baixo – mesmo se for importante ter liquidez.
Embora deixem a desejar quando o assunto é diversificar, os executivos acertam na hora de buscar ajuda para suas apostas no mercado, especialmente aqueles do setor financeiro – 52% deles fazem suas escolhas sozinhos, mas sempre consultam um profissional especializado. O consultor é importante para comparar as aplicações e para coletar oportunidades e novidades do mercado. Mas você precisa saber o que significa cada uma das alternativas. “As pessoas precisam entender que o gerente de banco, o broker da corretora têm os próprios interesses, além do bem-estar do cliente”, diz Eid. “Não tem ninguém que cuide melhor do seu dinheiro do que você mesmo.”
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ÉpocaNegócios


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